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Uso precoce de redes sociais pode estar ligado a pior desempenho escolar, aponta estudo

  • Foto do escritor: Talles Costa
    Talles Costa
  • há 13 minutos
  • 4 min de leitura
Foto: Ivan Prokhorov
Foto: Ivan Prokhorov

O acesso precoce às redes sociais pode estar associado a resultados mais baixos no desempenho escolar de adolescentes, especialmente em matemática e língua. É o que aponta uma pesquisa realizada com 5.227 estudantes do norte da Itália, que identificou diferenças equivalentes a aproximadamente meio ano de aprendizagem entre jovens que criaram suas primeiras contas nas plataformas entre 11 e 13 anos e aqueles que aguardaram até os 14 anos ou mais. O estudo chama atenção para uma discussão que também alcança famílias e escolas em Brumadinho: os impactos do uso cada vez mais antecipado de celulares e redes sociais na rotina de crianças e adolescentes.

Publicado na revista científica Nature Human Behaviour, o trabalho acompanhou estudantes nascidos em 2007 e 2008, matriculados em escolas das províncias de Brescia, Cremona, Mantua, Milão e Monza e Brianza, na região da Lombardia.

Os pesquisadores compararam estudantes que começaram a utilizar redes sociais entre o sexto e o oitavo ano com aqueles que aguardaram até o nono ano ou mais. Na Itália, a idade mínima estabelecida para que adolescentes tenham acesso autônomo às plataformas é de 14 anos.

De acordo com os resultados, os alunos que criaram suas primeiras contas entre 11 e 13 anos apresentaram desempenho inferior em matemática e língua italiana. A diferença identificada pelos pesquisadores corresponde a aproximadamente meio ano de aprendizagem.

O efeito foi ainda mais significativo entre os estudantes que começaram a utilizar redes sociais no sexto ano. Nesse grupo, a diferença chegou a 0,27 desvio padrão em matemática e 0,22 em língua italiana, em comparação com aqueles que esperaram até o nono ano.

A diferença não desapareceu nos anos seguintes. No oitavo ano, os estudantes que haviam iniciado o uso das redes sociais ainda no sexto ano apresentavam diferenças de 0,18 em matemática e 0,22 em língua italiana.

A análise também apontou uma relação entre a idade de entrada nas plataformas e o desempenho posterior. Quanto mais cedo ocorria o início do uso das redes sociais, maior tendia a ser a diferença identificada nos resultados escolares.

Para Giovanni Abbiati, um dos responsáveis pelo estudo, a diferença observada entre os grupos representa uma parcela relevante das desigualdades educacionais identificadas na Itália.

Uma das questões investigadas pelos pesquisadores foi justamente o que poderia explicar essa associação. Entre os fatores identificados está a utilização mais intensa do celular em momentos considerados importantes da rotina, como antes de dormir, logo depois de acordar e durante a realização das atividades escolares.

O estudo não analisou apenas o número de horas que os jovens permaneciam diante das telas. Os pesquisadores utilizaram uma escala denominada "pervasividade do smartphone", que considera o quanto o aparelho passa a ocupar diferentes momentos do cotidiano.

Segundo os resultados, essa presença constante do celular explicou uma parcela significativa das diferenças encontradas no desempenho acadêmico. A relação foi mais forte em matemática, mas também apareceu nos resultados de língua italiana.

Os dados também mostram a forte presença dos celulares entre os adolescentes analisados. Ao final do ensino fundamental, 98% dos estudantes possuíam um aparelho. Quase metade, 47%, havia recebido o primeiro celular com acesso à internet ainda no sexto ano.

A entrada nas redes sociais também ocorreu cedo para uma parcela dos participantes. Cerca de 11,2% afirmaram ter criado um perfil ainda no ensino fundamental inicial. Outros 29,5% fizeram isso no sexto ano, 25% no sétimo e 18% no oitavo. Apenas 16,3% aguardaram até o nono ano.

Apesar das diferenças encontradas em matemática e língua italiana, o estudo não identificou uma queda semelhante no aprendizado de inglês. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que a exposição frequente ao idioma em redes sociais e outros conteúdos digitais possa ter contribuído para esse resultado.

Também não foram observadas diferenças relevantes em determinadas avaliações relacionadas à leitura e à compreensão oral.

Os pesquisadores analisaram ainda características sociais e familiares, incluindo a estrutura familiar e a escolaridade dos pais. Segundo o trabalho, os estudantes que começaram mais cedo nas redes sociais já apresentavam algumas diferenças sociais e acadêmicas antes da análise.

Por isso, os autores ressaltam que os resultados precisam ser interpretados considerando o contexto específico do norte da Itália e da Europa Ocidental. Novas pesquisas serão necessárias para verificar se os mesmos efeitos aparecem em outros países e em diferentes grupos sociais.

O próprio estudo apresenta limitações. Não foi possível controlar todos os fatores que poderiam interferir nos resultados, além de não terem sido incluídos dados relacionados ao abandono escolar e aos jovens que estavam fora do sistema de ensino.

Ainda assim, os pesquisadores defendem a necessidade de ampliar o debate sobre a idade de entrada nas redes sociais e sobre a maneira como crianças e adolescentes utilizam os celulares.

Para os autores, retardar o acesso às plataformas pode trazer benefícios, especialmente diante da exposição precoce e acumulada às redes sociais por meio dos smartphones. A pesquisa também aponta que famílias e escolas podem desempenhar papel importante na educação digital, ajudando os jovens a compreender os efeitos do uso contínuo dos dispositivos e a fazer escolhas mais conscientes no ambiente virtual.

Para estudantes e famílias de Brumadinho, o estudo oferece um ponto de reflexão sobre uma realidade cada vez mais presente na rotina escolar: a relação entre o celular, as redes sociais e o tempo dedicado aos estudos. Embora a pesquisa tenha sido realizada na Itália e não permita afirmar que os mesmos resultados ocorram da mesma maneira entre estudantes brasileiros, os dados reforçam a importância de discutir como e quando crianças e adolescentes passam a utilizar essas ferramentas.

Mais do que simplesmente estabelecer uma quantidade de horas diante das telas, a pesquisa chama atenção para a presença do celular em diferentes momentos do cotidiano. O aparelho pode acompanhar o estudante durante as tarefas, ao acordar e antes de dormir, tornando o debate sobre seu uso uma questão que ultrapassa o tempo de permanência nas redes sociais.

Nesse cenário, a participação das famílias e das escolas aparece como um dos caminhos apontados pelos pesquisadores para ampliar a educação digital. A proposta é ajudar crianças e adolescentes a compreenderem melhor os impactos do uso dos dispositivos e a desenvolverem escolhas mais conscientes no ambiente virtual.


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