Apostas on-line: afastamentos pelo INSS aumentam mais de 1.200% em Minas
- Talles Costa

- há 3 horas
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Minas Gerais registrou um aumento expressivo no número de trabalhadores afastados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) em razão de transtornos relacionados ao vício em apostas, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Entre 2021 e 2025, os registros passaram de seis para 83 benefícios por incapacidade temporária, crescimento de 1.283% em cinco anos. O levantamento também aponta que 185 benefícios desse tipo foram concedidos no Estado desde o início da série histórica. Em Belo Horizonte, o avanço também aparece nos atendimentos de saúde: até o fim de julho de 2026, 206 atendimentos médicos haviam sido realizados para pessoas diagnosticadas com problemas relacionados à ludopatia, número que já corresponde a 78% do total registrado durante todo o ano de 2025. O cenário chama atenção também para os moradores de Brumadinho, onde o crescimento das apostas on-line pode trazer consequências para a saúde mental, as relações familiares e o ambiente de trabalho.
A ludopatia é caracterizada pela perda de controle sobre o ato de apostar, mesmo quando a prática começa a provocar consequências negativas na vida da pessoa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o transtorno como uma condição relacionada à saúde mental.
Em Minas Gerais, a evolução dos afastamentos demonstra o crescimento dos registros nos últimos anos. Em 2021, foram concedidos seis benefícios por incapacidade temporária relacionados ao chamado “transtorno mental oficial de hábito e impulso”. No ano seguinte, o número subiu para dez.
Em 2023, foram registrados 25 benefícios. Já em 2024, o número chegou a 61. Em 2025, foram 83 afastamentos, o maior volume registrado desde o início da série histórica.
O Ministério da Previdência Social ressalta que os números não representam todos os trabalhadores que podem ter enfrentado problemas relacionados às apostas. Os dados correspondem somente aos benefícios de auxílio por incapacidade temporária concedidos pelo Regime Geral de Previdência Social (RGPS).
Para trabalhadores empregados, o benefício é concedido quando o afastamento da atividade profissional ultrapassa 15 dias, desde que o segurado esteja vinculado ao RGPS. Assim, os levantamentos não incluem afastamentos de até 15 dias nem servidores públicos vinculados a regimes próprios de previdência.
Também podem receber o benefício pessoas que não estão trabalhando no momento da solicitação, mas que ainda mantêm a condição de seguradas do sistema. É o caso, por exemplo, de trabalhadores desempregados que permanecem protegidos pelo RGPS durante determinado período.
O impacto do problema também começa a aparecer no ambiente profissional. Segundo a advogada especialista em direito cível Fernanda Jatobá, a ludopatia pode provocar faltas ao trabalho, queda de produtividade e situações em que o trabalhador permanece no ambiente profissional, mas tem sua capacidade de concentração comprometida.
Entre os problemas relatados estão ainda situações envolvendo uso excessivo do celular durante o expediente para realizar apostas, incentivo para que outros funcionários também participem dos jogos e, em casos mais graves, desvios de dinheiro para sustentar a prática.
A relação entre o vício em apostas e o trabalho também vem sendo discutida no Tribunal Superior do Trabalho (TST). A Corte analisa a possibilidade de equiparar, em determinadas situações, o tratamento jurídico dado à ludopatia ao aplicado a outros transtornos relacionados a comportamentos compulsivos, como o alcoolismo.
Atualmente, uma súmula do TST estabelece presunção de caráter discriminatório para determinadas demissões de trabalhadores acometidos por doenças consideradas estigmatizantes. A discussão sobre a ludopatia envolve a possibilidade de aplicação dessa proteção quando houver diagnóstico médico e comprovação da condição.
O ministro do TST Alexandre Agra Belmonte, coordenador nacional do Programa Trabalho Seguro, destaca a necessidade de diferenciar uma conduta disciplinar de uma condição clínica que exige tratamento. Nesse contexto, uma atitude considerada indisciplinada pode ser objeto de medidas como advertência ou suspensão, enquanto uma doença diagnosticada demanda avaliação e acompanhamento médico.
No Brasil, o crescimento dos afastamentos relacionados ao jogo patológico também é significativo. Segundo os dados do Ministério da Previdência Social, os benefícios por incapacidade temporária relacionados ao problema passaram de cinco, em 2016, para 312, em 2025, crescimento de 6.140% em uma década.
Para especialistas, o aumento dos registros está relacionado também à facilidade de acesso às plataformas digitais. Diferentemente das modalidades tradicionais de apostas, as bets podem ser acessadas praticamente a qualquer momento por meio de smartphones.
A psicóloga e conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), Laura Lobo, alerta que o problema não deve ser reduzido à falta de controle financeiro ou de força de vontade.
Segundo ela, um dos principais sinais da ludopatia é justamente a perda de controle. A pessoa pode começar apostando ocasionalmente e, gradualmente, aumentar a frequência, o tempo e o dinheiro destinado às apostas, mesmo quando já percebe consequências negativas.
O acesso permanente às plataformas por meio dos celulares pode agravar esse comportamento. A possibilidade de apostar a qualquer hora facilita a repetição do ciclo e a busca constante por uma nova aposta.
Outro fator apontado pela especialista é a forma como as plataformas são estruturadas. Segundo Laura Lobo, os sistemas de apostas utilizam mecanismos de recompensa imediata que podem manter o usuário envolvido por mais tempo, aumentando o risco de comportamento compulsivo entre pessoas vulneráveis.
As consequências não se restringem às perdas financeiras. O problema pode levar ao comprometimento do pagamento de contas, contratação de empréstimos e endividamento, além de afetar o sono, a rotina, os relacionamentos e a saúde emocional.
A vergonha e o sentimento de culpa também podem dificultar a procura por ajuda. Em muitos casos, a pessoa continua apostando na tentativa de recuperar valores perdidos, o que pode aprofundar o problema financeiro e emocional.
A psicóloga reforça que a ludopatia pode estar associada a outros quadros de sofrimento emocional, como ansiedade e depressão, tornando o acompanhamento profissional uma ferramenta importante para o tratamento.
Em Belo Horizonte, os números registrados pela Prefeitura também mostram uma evolução significativa. Até o final de julho de 2026, foram realizados 206 atendimentos médicos de pessoas diagnosticadas com problemas relacionados ao vício em jogos.
O número já representa 78% dos 263 atendimentos registrados durante todo o ano de 2025. Na comparação com 2024, quando foram contabilizados 62 atendimentos, o crescimento chega a 324%.
A Prefeitura de Belo Horizonte informou que pessoas com transtornos associados à dependência de jogos de azar são acolhidas pela Rede SUS-BH, seguindo as diretrizes da Política de Saúde Mental do município.
Os casos considerados leves são acompanhados pelas equipes de saúde mental dos centros de saúde. Quando a dependência provoca impactos maiores na vida social e caracteriza uma situação de crise, o atendimento pode ser realizado em um dos oito Centros de Referência em Saúde Mental (Cersams).
A Secretaria Municipal de Saúde também informou que vem orientando os profissionais para que os registros de atendimento incluam os códigos relacionados à ludopatia, mesmo quando a procura pelo serviço não tenha ocorrido inicialmente por causa desse transtorno.
Em Minas Gerais, a Secretaria de Estado de Saúde informou não possuir dados consolidados sobre o número de pessoas atendidas ou afastadas especificamente por ludopatia, uma vez que o atendimento é realizado pelos municípios.
O Estado possui 444 Centros de Atenção Psicossocial (Caps), em diferentes modalidades, com acesso aberto à população. O atendimento é definido de acordo com as necessidades de cada paciente e pode incluir consultas individuais, atividades em grupo, acompanhamento por equipes multiprofissionais, atendimento em situações de crise e orientação para familiares.
O acompanhamento também pode envolver medicamentos quando houver indicação. A rede estadual destaca ainda que familiares podem procurar os serviços de saúde para receber orientações sobre como agir diante de uma situação de dependência.
Além do tratamento, medidas de prevenção e redução de danos também vêm sendo adotadas em âmbito nacional. O Ministério da Fazenda estabeleceu regras para publicidade de apostas e jogos de cassino e disponibilizou uma ferramenta de autoexclusão.
O recurso permite que o próprio usuário suspenda sua conta por determinado período ou de maneira definitiva. Também é possível estabelecer limites relacionados ao valor dos depósitos e ao tempo de utilização das plataformas.
A orientação é que os apostadores estabeleçam previamente limites de tempo e dinheiro, sem comprometer recursos destinados a despesas essenciais. Especialistas também recomendam evitar apostas em momentos de tristeza, ansiedade ou estresse e conversar com familiares e amigos sobre os hábitos relacionados ao jogo.
Para Brumadinho, o crescimento registrado em Minas Gerais representa um alerta sobre um fenômeno que ultrapassa os grandes centros urbanos. A facilidade de acesso às plataformas de apostas faz com que o problema possa atingir pessoas de diferentes municípios e faixas de renda.
Embora não haja, nos dados apresentados, um levantamento específico sobre a situação de Brumadinho, os números estaduais e os registros da capital mineira demonstram que a ludopatia já produz impactos concretos na saúde e no mercado de trabalho.
O avanço dos afastamentos pelo INSS também mostra que o problema pode chegar ao ponto de comprometer a capacidade de uma pessoa exercer suas atividades profissionais. Por isso, especialistas defendem que sinais de dependência sejam tratados como uma questão de saúde e não apenas como uma falha de comportamento ou disciplina.
A identificação precoce, o diálogo com familiares e a busca por atendimento especializado são apontados como medidas importantes para evitar que as perdas financeiras e emocionais se agravem.















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