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Especialista critica moda das canetas para emagrecer: "tratamento não é cosmético"

  • Foto do escritor: Guilherme Almeida
    Guilherme Almeida
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura
Foto - Divulgação
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O Dia Mundial da Obesidade, celebrado neste 4 de março, chega em 2026 com um alerta que vai além da doença em si: a febre das chamadas "canetas emagrecedoras" tem levado milhares de pessoas a buscar soluções rápidas sem orientação médica, colocando a saúde em risco. Desenvolvidas originalmente para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, os agonistas de GLP-1 viraram moda nas redes sociais, onde a perda de peso é vendida como troféu de disciplina, ignorando os efeitos colaterais, a falta de evidências para quem não tem indicação clínica e os perigos da automedicação. Em Brumadinho, onde a busca por qualidade de vida e estética também cresce, a data serve como um chamado à conscientização sobre os riscos de tratamentos milagrosos.

Pesquisa recente da Universidade de São Paulo (USP) confirma o crescimento alarmante do uso dessas substâncias por pessoas sem diagnóstico de doença metabólica. O que deveria ser uma ferramenta de saúde para pacientes com obesidade ou diabetes tornou-se objeto de desejo para quem quer perder "aqueles dois quilinhos" por vaidade. O problema é que, sem indicação formal, a forma de aquisição tende a ser duvidosa, com risco de contaminação, falsificação e uso de produtos sem procedência. Há casos de venda de medicamentos que sequer foram lançados pela indústria, o que indica, por definição, que não podem ser o fármaco anunciado.

O médico endocrinologista e metabologista Rafael Fantin, especialista em medicina do exercício e esporte, explica que as canetas imitam hormônios que controlam apetite e saciedade. Para quem tem obesidade, são uma ferramenta plausível. Para quem busca apenas emagrecimento estético, o cenário é de incerteza: náuseas, vômitos, dependência emocional do fármaco e o medo de recuperar todo o peso assim que o tratamento acaba. "Quando não há indicação formal, a pessoa pode estar usando um produto falsificado, com concentração errada ou substância diferente. Nem o paciente nem o médico conseguem ter segurança sobre o que foi aplicado", alerta.

Além dos riscos imediatos, o uso sem acompanhamento pode desencadear ou agravar transtornos alimentares como anorexia e bulimia, deficiências nutricionais, perda acentuada de massa muscular e alterações endócrino-metabólicas por baixo peso. Fantin compara o músculo a uma empresa em déficit: se os funcionários ficam sem trabalho, são demitidos. No emagrecimento rápido, o corpo perde músculo, o gasto energético cai e, quando a pessoa volta a comer como antes, aumenta a chance de recuperar a gordura perdida. "O corpo entende o peso anterior como mais seguro e aciona mecanismos de defesa. Se a perda foi forçada, o organismo tenta recuperar", explica.

Outro ponto crítico é o chamado efeito rebote. Durante o emagrecimento, o corpo ativa mecanismos endócrino-metabólicos de proteção: absorve e armazena mais, gasta menos calorias, aumenta a fome e reduz a saciedade. Se a pessoa perdeu peso sem mudar efetivamente o estilo de vida, o corpo interpreta aquilo como uma agressão e reage. "A medicação pode potencializar o resultado, mas o real tratamento envolve diagnóstico, correções bioquímicas, mudanças de comportamento e estilo de vida. Sem isso, o resultado tende a ser curto e frustrante", reforça o especialista.

As contraindicações também merecem atenção. O uso de agonistas de GLP-1 não é indicado para pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide e neoplasia endócrina múltipla, condições raras mas graves. Também exige cautela em casos de pancreatite e é proibido durante gravidez e lactação. No entanto, o maior risco hoje está na compra de medicamentos de origem duvidosa. Farmácias de manipulação podem ser aliadas quando há critério e rastreabilidade, mas o mercado paralelo de canetas falsificadas cresce sem controle.

Para Fantin, as redes sociais têm papel central na banalização do uso. "Elas vendem o resultado e escondem o processo. Mostram o antes e depois, a comparação, o atalho, como se emagrecer fosse algo simples e estético. Isso faz a pessoa tratar uma medicação de doença crônica como se fosse cosmético", critica. O antídoto, segundo ele, é a informação de qualidade: explicar que a caneta é uma ferramenta dentro de um tratamento, não uma solução mágica.

No Dia Mundial da Obesidade, a mensagem para os moradores de Brumadinho é clara: saúde não se compra com atalhos. Antes de buscar qualquer medicação para emagrecer, é fundamental procurar um médico, investigar as causas do ganho de peso, avaliar os riscos e entender que o processo exige mudanças reais e duradouras. O corpo não é um cenário de dancinha virtual, e o preço de uma escolha errada pode ser muito mais alto do que os "dois quilinhos" que se queria perder.

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