Engenheira civil será primeira depoente técnica em nova etapa do processo da Vale
- Guilherme Almeida

- há 45 minutos
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O processo criminal que apura as responsabilidades pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho entra em nova fase a partir da próxima sexta-feira (13), quando o Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6) começa a ouvir testemunhas técnicas. A primeira depoente desta etapa será a engenheira civil Maria Regina Moretti, que trabalhou na empresa POTAMOS e deverá apresentar análises especializadas sobre o comportamento da estrutura e os fatores que contribuíram para o colapso da Barragem B1, na Mina Córrego do Feijão. Por se tratar de um depoimento técnico, a expectativa é de uma exposição longa e detalhada sobre os aspectos estruturais do desastre que matou 272 pessoas em 25 de janeiro de 2019.
A mudança para a fase técnica ocorre após uma sequência de audiências dedicadas a ouvir sobreviventes e familiares das vítimas. Na sessão realizada na última segunda-feira (9), o quinto dia de oitivas reuniu relatos marcados por lembranças do rompimento, perdas humanas e impactos sociais que persistem mais de seis anos após o crime. Antes do início dos depoimentos, apoiadores vindos de Angueretá, distrito de Curvelo, estiveram no tribunal para um ato de solidariedade, reunindo orações e palavras de ordem por justiça, com a presença do Frei Gilvander Moreira.
Os depoimentos colhidos na segunda-feira revelaram a dimensão do trauma vivido pelos sobreviventes. Leandro Borges Cândido, operador de equipamentos da Vale por mais de oito anos, descreveu o momento em que percebeu o desastre. "Quando olhei ao fundo vi vagões voando, tipo um filme de terror. Avisei no rádio e a lama veio. Começou a entrar na máquina e me empurrou. Eu disse para Deus: vou morrer aqui". Resgatado por colegas, ele sofreu fraturas e rompeu ligamentos, convivendo até hoje com dores e medicamentos. Leandro criticou os treinamentos da empresa: "Mostravam rotas de fuga e tocavam sirene nos simulados. Mas na hora do rompimento a sirene não tocou e as rotas não eram acessíveis. Não tínhamos para onde correr".
Elias de Jesus Nunes, empregado da Vale desde 2005, estava próximo à barragem e também não ouviu qualquer alerta. "Só ouvi o barulho e vi um pouco de poeira. A lama pegou o carro e fomos levados. Por um milagre, sobrevivemos". Ele afirmou que as orientações de segurança não seriam suficientes diante da velocidade do rompimento: "A única orientação era que em caso de rompimento a sirene tocaria. Mas eu não ouvi sirene nenhuma".
Os impactos do desastre não se limitaram às mortes. Soraia Aparecida Campos, moradora do Parque da Cachoeira, agricultora por 25 anos, perdeu o modo de vida que sustentava a família. "Nossa forma de sobrevivência foi destruída. Hoje sou cozinheira porque não temos mais terra nem água adequadas para plantar". Ela contou que os moradores nunca receberam orientações sobre riscos ou rotas de fuga e que o córrego, as hortas e os maquinários foram destruídos pela lama. Soraia faz exames regulares para verificar a presença de metais pesados no sangue, uma preocupação constante entre os atingidos.
Jefferson Custódio Santos Vieira, que perdeu a avó e uma tia, trouxe um relato marcado pela dor do luto interrompido. "Minha avó foi enterrada em um saco de lixo. Achei uma das coisas mais tristes da minha vida. Não tivemos um mínimo de dignidade". Ele afirmou que o ciclo não se fechou e que as famílias seguem sofrendo com a falta de respostas.
Para o advogado da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos do Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (AVABRUM), Danilo Chammas, a nova etapa técnica é fundamental. "Esperamos que as testemunhas reafirmem o que já declararam perante as polícias e CPIs, além de apresentarem mais informações sobre as falhas técnicas, os atos e omissões dos réus que ocasionaram o colapso".
Para Brumadinho, cada audiência representa um passo na longa caminhada por justiça. Os depoimentos colhidos até agora reafirmam a gravidade do crime e a necessidade de responsabilização dos envolvidos. A fase técnica que se inicia na sexta-feira promete aprofundar o entendimento sobre as causas do desastre, aproximando a Justiça da verdade que as vítimas e seus familiares esperam há mais de seis anos.















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