top of page

Energia fica mais barata no curto prazo, mas El Niño aumenta preocupação para 2027

  • Foto do escritor: Guilherme Almeida
    Guilherme Almeida
  • há 6 horas
  • 5 min de leitura
Foto: WIX
Foto: WIX

O avanço dos efeitos do El Niño já começa a influenciar o mercado de energia elétrica no Brasil, provocando movimentos diferentes nos preços dos contratos de curto e longo prazo e aumentando a preocupação do setor com as condições de geração nos próximos anos. Segundo informações publicadas pela Folha e reproduzidas no texto-base, contratos de energia para agosto e setembro chegaram a registrar queda de 44% em relação ao fim de maio, impulsionados principalmente pelo aumento das chuvas na Região Sul, enquanto os contratos com entrega a partir de 2027 tiveram leve valorização, sinalizando uma percepção maior de risco para o futuro. Para consumidores de Brumadinho, os efeitos ainda não significam necessariamente uma mudança imediata na conta de luz, mas podem influenciar os custos do sistema elétrico e as tarifas caso seja necessário ampliar o uso de usinas termelétricas.

O mercado livre de energia é formado por consumidores que podem negociar diretamente com empresas comercializadoras os prazos e volumes de energia que desejam contratar, sem depender exclusivamente da distribuidora local. Atualmente, esse modelo atende cerca de 80 mil consumidores e representa aproximadamente 42% de toda a energia consumida no Brasil.

Por enquanto, a possibilidade de participação está restrita aos consumidores de média e alta tensão, grupo que inclui indústrias, shoppings e aeroportos. A abertura do mercado para os consumidores residenciais está prevista para ocorrer de forma completa até 2028.

Nesse ambiente de negociação, a BBCE, Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia, é um dos principais espaços de compra e venda dos contratos. De acordo com a empresa, cerca de 30% das negociações do mercado livre passam pela plataforma. Em 2025, foram movimentados R$ 90 bilhões.

Nas últimas semanas, as condições climáticas provocadas pelo El Niño começaram a aparecer nos preços negociados. Dados da BBCE obtidos pela Folha apontam que os contratos de curto prazo sofreram uma redução expressiva.

Os contratos com fornecimento em setembro para a Região Sudeste terminaram julho cotados a R$ 138,32 por megawatt-hora (MWh). O valor representa uma queda de 14% em relação a junho e de 44% quando comparado ao último dia útil de maio.

Já os contratos com vencimento em agosto encerraram julho a R$ 188,86 por MWh, acumulando uma redução de 23% nos dois meses anteriores.

A principal explicação para essa queda está relacionada ao aumento das chuvas, especialmente na Região Sul. Segundo Eduardo Rossetti, diretor-executivo de produtos e relações institucionais da BBCE, o sistema elétrico brasileiro possui forte dependência da disponibilidade de água. Com maior volume de chuvas, os reservatórios recebem mais água e o preço da energia tende a cair. Em períodos de menor precipitação, ocorre o movimento contrário.

Em julho, a Região Sul registrou chuvas equivalentes a 256% da média histórica, cenário que contribuiu para reduzir a pressão sobre os preços de curto prazo.

Apesar do cenário favorável no Sul, o mercado passou a demonstrar preocupação com os efeitos que o El Niño pode provocar em outras regiões do país. Uma das características esperadas do fenômeno é a possibilidade de intensificação da seca no Norte e no Nordeste.

Essa perspectiva ajuda a explicar o comportamento diferente dos contratos de longo prazo. Enquanto os preços para os próximos meses caíram, os contratos com entrega a partir de 2027 apresentaram uma leve alta.

Os contratos referentes ao período entre fevereiro de 2027 e janeiro de 2028 registraram aumento de 1% em relação a maio e de 4% na comparação com junho. Embora os percentuais sejam considerados modestos, a direção oposta dos preços de curto e longo prazo chamou a atenção de especialistas.

Esse movimento é conhecido no setor como “torção de curva” e ocorre quando os preços de diferentes períodos seguem trajetórias opostas. A situação pode indicar que os agentes do mercado estão incorporando aos contratos futuros uma percepção maior de risco relacionada às condições de geração de energia.

A preocupação com o Norte ganhou ainda mais importância devido à expansão da participação da região na geração elétrica nacional. Segundo Eduardo Rossetti, a entrada das usinas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, e de Belo Monte aumentou a relevância do Norte para o sistema brasileiro, especialmente nas projeções para 2027.

Maikon Del Ré Perin, executivo da área de risco e inteligência de mercado da Ludfor, também avalia que as condições climáticas no Centro-Norte podem representar um fator de pressão. Segundo ele, a expectativa é de chuvas abaixo da média na região, o que poderia provocar redução nos níveis dos reservatórios.

Os efeitos do El Niño, entretanto, não estão restritos à geração hidrelétrica. A geração eólica também pode sofrer impactos, especialmente durante o período de maior produção dos parques.

De acordo com Maikon, o final do ano concentra a chamada safra dos ventos, mas a previsão de menor intensidade dos ventos pode reduzir a geração esperada. O fenômeno climático pode enfraquecer a alta subtropical do Atlântico Sul, diminuindo a força dos ventos no Nordeste, região que concentra parte importante da geração eólica brasileira.

Uma geração inferior à esperada por parte das usinas eólicas pode aumentar a necessidade de utilização de outras fontes e, consequentemente, pressionar os preços da energia.

Os impactos também podem chegar ao chamado mercado cativo, no qual estão os consumidores que não negociam diretamente seus contratos de fornecimento no mercado livre e permanecem vinculados à distribuidora.

Nesse caso, a reação às condições climáticas pode demorar mais para aparecer diretamente nas contas dos consumidores. Uma das principais preocupações está relacionada ao aumento da utilização de usinas termelétricas.

Quando os reservatórios das hidrelétricas estão em condições menos favoráveis, as termelétricas podem ser acionadas para garantir o atendimento da demanda. Como essas usinas apresentam custos de geração mais elevados, o aumento de sua utilização pode pressionar os custos de operação do sistema e, posteriormente, as tarifas de energia.

O setor elétrico já começou a se preparar para possíveis impactos do El Niño. Em julho, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), ligado ao Ministério de Minas e Energia, adotou medidas para reforçar a segurança e a continuidade do fornecimento de energia.

Entre as ações está a antecipação do suprimento de cinco usinas termelétricas que venceram o leilão de reserva de capacidade realizado no início do ano. Essas unidades estavam inicialmente previstas para entrar em operação em 2027 e 2028.

Com a antecipação, as usinas passam a ser remuneradas antes do cronograma original. Os custos dessa operação são repassados aos consumidores por meio dos encargos do sistema elétrico.

Para Brumadinho, que possui consumidores residenciais, comerciais e atividades econômicas ligadas à indústria e à mineração, o comportamento do mercado de energia merece acompanhamento. Embora a oscilação dos contratos no mercado livre não represente automaticamente uma alteração imediata nas contas de todos os consumidores, uma eventual necessidade maior de acionamento de termelétricas pode aumentar os custos do sistema e influenciar as tarifas.

O cenário ainda depende da evolução das condições climáticas ao longo dos próximos meses. Enquanto as chuvas acima da média no Sul contribuíram para reduzir os preços de curto prazo, a expectativa de condições menos favoráveis em outras regiões mantém o mercado atento aos efeitos que o El Niño poderá produzir sobre a geração hidrelétrica e eólica.

Comentários


Anuncie Apoio_edited.jpg

Receba nossas atualizações

Obrigado pelo envio!

© 2026 por Portal Independente Notícia. 

© Copyright
bottom of page