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Super El Niño pode causar pior seca da história da Grande BH em 2028

Foto do escritor: Talles Costa
Talles Costa
há 7 horas
7 min de leitura
Foto: redcharlie
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A possibilidade de uma seca severa em Minas Gerais nos próximos anos acende um alerta para o abastecimento de água em municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte e também para a gestão dos recursos hídricos na região. Uma nota técnica do Fórum Permanente São Francisco aponta que os efeitos de um El Niño de grande intensidade podem provocar, após o fenômeno, uma redução expressiva na vazão do rio das Velhas, com impactos mais graves previstos para 2028. O cenário é acompanhado por pesquisadores, pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas e pela Copasa, que já avalia o documento e afirma manter ações de monitoramento e investimentos em segurança hídrica. Para Brumadinho, que integra a região metropolitana e possui relação direta com a bacia hidrográfica, o alerta reforça a importância do planejamento e da preservação dos recursos hídricos diante de possíveis períodos prolongados de estiagem.

De acordo com o estudo, a projeção considera os efeitos de um El Niño de grande magnitude, fenômeno climático associado a alterações na temperatura do Oceano Pacífico e que pode influenciar o regime de chuvas e as temperaturas em diferentes regiões do planeta. Estudos utilizados na elaboração da nota técnica, com base em 55 anos de dados climáticos, indicam que episódios muito fortes do fenômeno foram seguidos por períodos de redução significativa na vazão do rio das Velhas.

Um dos pontos considerados mais sensíveis está localizado entre os distritos de Bela Fama e Honório Bicalho, em Nova Lima. Na região funciona a Estação de Tratamento de Água (ETA) de Bela Fama, estrutura responsável, segundo informações da Copasa, pelo fornecimento de água para aproximadamente 70% de Belo Horizonte e 43% da Região Metropolitana.

A preocupação está relacionada principalmente ao comportamento do rio das Velhas nos períodos posteriores aos eventos de El Niño considerados de maior intensidade. Segundo a nota técnica, nos últimos 50 anos foram registrados quatro episódios classificados como muito fortes, sendo o mais recente em 2024. A análise aponta que, nos anos seguintes a esses fenômenos, houve queda acentuada na vazão média do rio na Região Metropolitana.

O pesquisador Euler Cruz, responsável pelo estudo, afirma que a redução da disponibilidade de água não estaria relacionada somente às condições climáticas. Segundo ele, alterações provocadas pela ocupação e pelas atividades desenvolvidas na região também interferem no comportamento dos recursos hídricos.

Conforme os dados analisados, desde 1971, quando começaram as medições do volume de água do rio em Honório Bicalho, a vazão média apresentou redução de 13% ao longo de 55 anos. O pesquisador atribui parte dessa diminuição, principalmente, à atuação de mineradoras na região.

Segundo Euler Cruz, o rebaixamento do lençol freático realizado para o aprofundamento de cavas e a retirada de água de nascentes interferem na disponibilidade hídrica, especialmente durante os períodos de estiagem. Na avaliação apresentada pelo pesquisador, a redução da vazão durante a estação seca tem sido significativa.

A nota técnica trabalha ainda com diferentes possibilidades de intensidade para o próximo El Niño. Em um cenário de temperaturas do oceano até 3°C acima da média, a estimativa apresentada é de redução de aproximadamente 47% na vazão média do rio das Velhas, que poderia chegar a cerca de 15 metros cúbicos por segundo. Esse nível seria próximo aos menores registros da série histórica citados no estudo: 14,9 m³/s em 2017 e 15,1 m³/s em 2014.

Em uma hipótese de intensidade ainda maior, com elevação de 3,7°C na temperatura do oceano, a queda da vazão poderia se aproximar de 60%. De acordo com a avaliação apresentada no documento, esse cenário poderia levar cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte a enfrentar uma situação de crise hídrica extrema.

Euler Cruz afirma que os efeitos mais severos podem aparecer depois da passagem do fenômeno. Segundo o pesquisador, o comportamento observado em seis dos sete eventos históricos analisados indica que o ano seguinte ao El Niño pode apresentar uma estação seca mais intensa, enquanto aproximadamente um ano e meio a dois anos depois os impactos podem se tornar ainda mais graves. A projeção apresentada pelo especialista aponta 2027 como um possível ano seco e 2028 como um período potencialmente mais severo.

O alerta também chegou ao Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas. O presidente do colegiado, Valter Vilela, informou que os dados apresentados pelo Fórum Permanente São Francisco passaram a ser discutidos com a Copasa e o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam).

A principal preocupação do comitê está concentrada no alto rio das Velhas, área que abrange o Quadrilátero Ferrífero, entre Ouro Preto e a região Norte de Belo Horizonte. Segundo Vilela, as alterações no uso do solo e as atividades existentes no entorno do rio podem interferir na infiltração da água da chuva e, consequentemente, na recarga dos lençóis subterrâneos.

Além da mineração, o presidente do comitê cita a expansão imobiliária, principalmente com a construção de condomínios, e a perfuração de poços sem critérios adequados como fatores que precisam ser observados no planejamento hídrico da região. Para ele, é necessário melhorar o conhecimento e a regulamentação sobre a utilização da água subterrânea.

A discussão sobre os efeitos de uma possível estiagem também envolve medidas que podem ser adotadas antes de uma eventual crise. O Fórum Permanente São Francisco encaminhou à Copasa recomendações para preparar os sistemas de abastecimento diante de uma possível redução da vazão do rio das Velhas.

Entre as medidas sugeridas estão a inclusão do cenário de redução da vazão nos planos de contingência do abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte, a revisão das outorgas e dos rebaixamentos de aquíferos na bacia e a investigação e controle de captações irregulares de água subterrânea.

Para Euler Cruz, o planejamento precisa levar em consideração que as previsões climáticas possuem incertezas. Mesmo que o volume total de chuva não apresente uma redução expressiva, uma distribuição irregular das precipitações pode dificultar a recuperação dos níveis dos rios e reservatórios.

O pesquisador também defende que campanhas de conscientização sejam realizadas antecipadamente para preparar a população para possíveis períodos de estiagem mais severos. A proposta é reduzir o impacto sobre os sistemas de abastecimento antes que uma eventual crise esteja instalada.

No campo, experiências de produtores da Região Metropolitana mostram algumas das medidas que podem ser utilizadas para tornar o consumo de água mais eficiente. Em uma propriedade de Caeté, a família Nunes passou a investir em alternativas de armazenamento e redução do consumo depois de enfrentar uma estiagem em 2014.

A família cultiva na propriedade desde 2002 e utiliza água de um afluente do ribeirão Ribeiro Bonito, localizado na microbacia do rio das Velhas. Entre as mudanças adotadas está o plantio direto, que, segundo os produtores, reduziu em aproximadamente 50% a necessidade de irrigação.

Também foi construído um reservatório para armazenar água da chuva e abastecer a produção por gravidade, diminuindo a necessidade de utilização de energia elétrica ou diesel. Barragens de contenção foram implantadas para reter sedimentos e aumentar a infiltração da água no solo.

O agricultor Marcelo Fernandes Nunes, de 40 anos, avalia que as medidas ajudam a propriedade a enfrentar os períodos de estiagem, mas afirma que ações semelhantes precisam ser ampliadas. Na avaliação dele, a adoção de práticas de economia e armazenamento de água por diferentes produtores poderia reduzir os efeitos dos períodos sem chuva.

As condições climáticas previstas para os próximos meses também são motivo de atenção. O professor Wellington Lopes Assis, do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da UFMG, afirma que a atuação de um El Niño forte tende a favorecer ondas de calor e atrasos no período chuvoso, além de provocar uma distribuição irregular das precipitações.

Uma nota técnica publicada pelo Centro de Inteligência em Defesa Civil (Cindec), em agosto, apontou previsão de temperaturas acima da média em praticamente todo o território mineiro. A exceção indicada no documento é uma pequena área da Zona da Mata próxima à divisa com o Rio de Janeiro, onde a previsão aponta aquecimento menor.

Segundo o Cindec, a expectativa é de que o El Niño permaneça atuando durante a primavera e o verão, com enfraquecimento gradual apenas no início de 2027. Mesmo depois do período de maior intensidade, os modelos analisados indicam que as águas do Pacífico Equatorial podem permanecer acima da média durante alguns meses.

O professor Wellington Lopes Assis, no entanto, ressalta que outros fenômenos atmosféricos também interferem nas condições climáticas e podem modificar a intensidade dos efeitos esperados. Ele cita a oscilação antártica, relacionada às correntes de vento que circundam a região, como um dos fatores capazes de favorecer a formação de ciclones e frentes frias no Hemisfério Sul.

Segundo o professor, a realidade observada em 2026 também demonstra que as projeções precisam ser acompanhadas continuamente. Apesar da expectativa inicial de uma estiagem significativa provocada pelo El Niño, houve registro de chuva em agosto, e os modelos continuavam indicando precipitações para setembro, período que normalmente corresponde ao auge da estação seca.

Procurada sobre a nota técnica do Fórum Permanente São Francisco, a Copasa informou que está avaliando o documento. A companhia afirmou que possui uma consultoria especializada em meteorologia e climatologia para acompanhar continuamente as condições capazes de afetar seus mananciais e sistemas de abastecimento.

A empresa também informou que monitora os efeitos potenciais de fenômenos como o El Niño e adota medidas para garantir a continuidade do abastecimento na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Segundo a Copasa, o planejamento de investimentos considera critérios de segurança hídrica, resiliência e robustez operacional para preparar os sistemas para eventos climáticos extremos.

Entre os investimentos citados pela companhia estão a ampliação e modernização do Sistema Rio Manso e a implantação de novas adutoras, com o objetivo de ampliar a capacidade de tratamento e reservação.

A Copasa também informou que o Sistema Rio das Velhas, responsável pelo atendimento de aproximadamente metade da Região Metropolitana e cerca de 70% de Belo Horizonte, passa por intervenções. Entre elas está a implantação do sistema de Ultrafiltração na ETA Bela Fama, apresentado pela empresa como uma barreira adicional de segurança no processo de tratamento.

Para Brumadinho e os demais municípios da Região Metropolitana, o cenário reforça a necessidade de acompanhamento das condições dos recursos hídricos e das medidas de planejamento adotadas pelos órgãos responsáveis. Embora as projeções apresentadas na nota técnica estejam relacionadas principalmente ao comportamento do rio das Velhas e ao abastecimento regional, os pesquisadores defendem que a preparação antecipada é fundamental diante da possibilidade de períodos mais severos de estiagem nos próximos anos.


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