Da costura criativa às festas tradicionais: comunidades de Marinhos, Ribeirão, Sapé e Rodrigues fortalecem cultura local
- Moisés Oliveira

- há 11 minutos
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Os moradores das comunidades quilombolas de Brumadinho — Marinhos, Ribeirão, Sapé e Rodrigues — deram um passo importante na valorização de suas tradições e na conquista de recursos públicos para a cultura. O Ciclo de Oficinas Itinerantes da Casulo Cidadania chegou à sua etapa final após realizar formações e um processo de mentorias voltadas à elaboração e ao cadastramento de projetos culturais, culminando na inscrição de três propostas nos editais da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) de Minas Gerais. A iniciativa, que teve como objetivo capacitar agentes culturais populares, fortaleceu expressões e saberes tradicionais das comunidades quilombolas da cidade.
Como resultado final do processo de formação e mentoria, foram efetivamente inscritos três projetos culturais. Um deles é voltado ao fomento à economia criativa, com foco na capacitação de agentes culturais e no fortalecimento da cadeia produtiva da costura na região de Brumadinho, no âmbito do Edital 03/2026 – Fomento a Projetos Continuados de Pontos e Pontões de Cultura. Também foram inscritos dois projetos na categoria de Trajetória Cultural (Edital 02/2026 – Mestres e Mestras), contemplando os mestres Seu Cambão (Antônio Alves da Silva) e Dona Elza (Maria Elza Silva Santos). Para os brumadinhenses, ver os nomes de seus mestres tradicionais concorrendo a editais públicos é um reconhecimento da importância de saberes que atravessam gerações.
Além das inscrições efetivadas, a iniciativa também promoveu a mobilização de outros dois mestres locais. Embora as propostas não tenham sido finalizadas dentro do prazo dos editais da PNAB, a Casulo Cidadania seguirá oferecendo apoio para novos cadastros, reconhecendo que essas articulações já apontam para desdobramentos e futuras iniciativas por parte dos participantes. De acordo com a coordenadora do projeto, Danusa Carvalho, a finalização do ciclo representa a consolidação de um processo de aprendizado prático que gerou resultados concretos. Ela afirmou que o trabalho deixa um legado que vai além dos projetos submetidos, fortalecendo a confiança, ampliando o repertório dos participantes e criando caminhos para que novas iniciativas continuem surgindo a partir dos próprios saberes locais. Danusa destacou que o investimento em formação continuada e mentoria faz diferença, pois os participantes não só aprenderam como vivenciaram todas as etapas do processo, o que aumenta muito as chances de continuidade e sustentabilidade das ações culturais nos territórios.
As atividades do projeto tiveram início com duas oficinas formativas realizadas em um mesmo local por questões de logística, reunindo participantes em momentos intensos de aprendizado e troca. O Módulo 1, conduzido por Gustavo Zubreu nos dias 30 e 31 de agosto, abordou a elaboração de projetos culturais com foco na Política Nacional Aldir Blanc, orientando sobre fontes de financiamento e estratégias de formalização. Já o Módulo 2, mediado por Maycon Junio Gonçalves nos dias 6 e 7 de setembro, foi dedicado ao empreendedorismo cultural, destacando práticas sustentáveis e oportunidades voltadas às comunidades quilombolas e tradicionais.
Após as oficinas, os participantes receberam mentorias individualizadas. Danusa Carvalho explicou que, por experiência, muitos projetos são realizados com muita teoria, e as pessoas saem com certificados mas muitas vezes não conseguem dar sequência. Por isso, a metodologia adotada foi a do fazer — colocar a mão na massa. A ideia foi que os participantes aprendessem fazendo, desenvolvessem seus próprios projetos e saíssem preparados para caminhar com autonomia. Morador da Comunidade de Rodrigues, o pesquisador Gabriel viu nas oficinas uma chance de se aprimorar para colocar em prática seus projetos, afirmando que a aula foi muito elucidativa e que vai agregar para continuar sua pesquisa com foco nos mestres das comunidades tradicionais. Caio, que trabalha com pinturas artísticas, também pretende aproveitar as experiências compartilhadas, dizendo ter interesse em participar e se inscrever em projetos, e que essa foi uma boa oportunidade para aprender.
Para os quilombolas de Brumadinho, a iniciativa da Casulo Cidadania representa não apenas a chance de acessar recursos públicos, mas também de afirmar suas identidades, valorizar seus saberes e construir autonomia. A Política Nacional Aldir Blanc, que já foi um socorro emergencial durante a pandemia, agora se consolida como uma política de estado que reconhece a cultura como direito. Com projetos inscritos, mestres reconhecidos e uma metodologia de formação prática, as comunidades de Marinhos, Ribeirão, Sapé e Rodrigues mostram que estão prontas para ocupar os espaços que lhes são de direito. Resta agora aguardar os resultados dos editais. Mas, independentemente do resultado, o processo de formação já deixou marcas profundas. E a Casulo Cidadania segue ao lado das comunidades, pronta para apoiar novos cadastros e futuras iniciativas.















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