Luto, cartas a políticos e uma luta contra o comércio: a história esquecida da verdadeira origem do Dia das Mães
- Talles Costa

- há 11 horas
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Os moradores de Brumadinho que vão celebrar o Dia das Mães neste segundo domingo de maio talvez não saibam, mas por trás das flores, presentes e almoços em família, existe uma história de luto, luta e resistência. A data, que se tornou uma das mais importantes do calendário brasileiro, não nasceu no comércio. Sua origem está nos Estados Unidos, no início do século XX, movida pelo desejo de uma filha de honrar a memória de sua própria mãe. Anna Maria Jarvis perdeu a sua em 9 de maio de 1905. A mãe de Anna era reconhecida como uma "grande mãe" na comunidade onde viviam, e sua morte gerou grande comoção local. Para os brumadinhenses que guardam com carinho a lembrança de suas mães — muitas delas também vítimas da tragédia de 2019, que levou 272 pessoas, muitas delas mães e avós —, a história de Anna ressoa de forma profunda e emocionante.
Movida pelo desejo de criar um dia para homenagear o trabalho e o sacrifício de todas as mães, Anna iniciou uma campanha. O primeiro marco foi alcançado em 10 de maio de 1908, quando foi realizada a primeira celebração oficial do Dia das Mães em Grafton, na Virgínia Ocidental. A ideia se espalhou rapidamente pelos Estados Unidos, impulsionada pela campanha de cartas que Anna enviava a políticos e figuras influentes da época. Em 1914, o Congresso dos EUA aprovou uma resolução, posteriormente assinada pelo presidente Woodrow Wilson, que oficializou o segundo domingo de maio como o Dia Nacional das Mães.
No entanto, há uma reviravolta surpreendente nessa história. Anna Jarvis, a criadora da data, passou o resto de sua vida lutando contra a comercialização da celebração que ela mesma havia idealizado. Ela se revoltou ao ver a data se transformar em um evento focado na venda de presentes e cartões, alegando que o verdadeiro sentido da homenagem havia sido perdido. Anna queria que o Dia das Mães fosse um dia de sentimento, não de lucro. Para os brumadinhenses, que muitas vezes enfrentam dificuldades financeiras e não podem comprar presentes caros, essa mensagem original é reconfortante: o que importa é o amor e a presença, não o valor do presente.
A tradição de celebrar o Dia das Mães chegou ao Brasil na década de 1920. A primeira comemoração registrada ocorreu em 12 de maio de 1918, promovida pela Associação Cristã de Moços (ACM) em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. No entanto, a oficialização em todo o território nacional veio anos depois. Em 5 de maio de 1932, o então presidente Getúlio Vargas assinou um decreto que estabeleceu o segundo domingo de maio como a data oficial para a celebração no Brasil. O governo de Vargas atendia a um apelo social da época, que via na data uma forma de valorizar a maternidade e a figura feminina na sociedade.
Para os brumadinhenses, o Dia das Mães nunca foi apenas uma data comercial. Em uma cidade que aprendeu a se reconstruir após a maior tragédia trabalhista do país, onde muitas famílias perderam suas matriarcas, celebrar a vida das mães que ainda estão aqui e honrar a memória das que se foram é um ato de resistência e amor. Que neste segundo domingo de maio, os brumadinhenses celebrem à sua maneira — com um abraço apertado, uma ligação, uma oração ou uma visita ao túmulo. E que nunca se esqueçam de Anna Jarvis, que nos ensinou que o verdadeiro sentido do Dia das Mães está no coração, não no bolso.















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