Sem acordo salarial, greve dos rodoviários ameaça paralisar transporte coletivo em Brumadinho
- Moisés Oliveira
- há 18 horas
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A categoria dos funcionários da CAF Transportes decidiu, em assembleia realizada na tarde desta quarta-feira, 13 de maio, deflagrar greve geral, colocando em risco a continuidade do serviço de ônibus que atende diariamente milhares de brumadinhenses. A deliberação ocorreu após reunião convocada pelo Sindicato dos Rodoviários de Brumadinho, que apontou a falta de avanços concretos na negociação do acordo coletivo para o período 2025/2026. A paralisação, ainda sem data oficial de início confirmada pela entidade, acendeu um sinal de alerta na população que depende exclusivamente do transporte coletivo para deslocamentos ao trabalho, escolas, unidades de saúde e ao centro da cidade. Enquanto os trabalhadores reivindicam melhores condições e cumprimento de prazos retroativos, a empresa alega dificuldades financeiras e aguarda uma revisão contratual por parte da Prefeitura de Brumadinho, que ainda não foi concluída.
De acordo com informações colhidas junto ao sindicato da categoria, a assemblea desta quarta reuniu um número expressivo de motoristas, cobradores e demais funcionários da CAF Transportes, que avaliaram como insatisfatória a proposta apresentada pela empresa nos últimos dias. A principal trava nas negociações envolve o pagamento de valores retroativos referentes à data-base, além do reajuste salarial para o novo período de vigência do acordo. Os trabalhadores sustentam que já houve tempo suficiente para que a empresa, o poder público e o sindicato chegassem a um termo definitivo, especialmente após a mediação conduzida pelo Município de Brumadinho em 24 de fevereiro de 2026. Na ocasião, ficaram estabelecidos prazos específicos para a quitação dos passivos, o que, segundo a assembleia, não foi cumprido integralmente.
A CAF Transportes, por sua vez, emitiu nota oficial ainda antes do desfecho da assembleia, afirmando que mantém disposição para o diálogo e que seguiu todas as etapas de negociação dentro do cronograma possível. A empresa explicou que, em 24 de fevereiro, houve sim uma mediação com participação ativa do Município de Brumadinho, na qual foram definidos prazos para o pagamento de retroativos, diante de dificuldades financeiras reconhecidas pela própria concessionária. A companhia também destacou que, para honrar esses compromissos, depende da conclusão de uma análise administrativa sobre o reajuste da planilha de remuneração do contrato de concessão — processo que, conforme a CAF, o município já iniciou, mas ainda não finalizou. Ou seja, a empresa condiciona o pagamento dos valores devidos aos trabalhadores à aprovação de um novo cálculo tarifário ou subsídio por parte da prefeitura.
Em um novo capítulo das tratativas, a CAF informou que, em reunião ocorrida justamente na véspera da assembleia, 12 de maio, solicitou ao sindicato uma prorrogação do prazo para o pagamento dos retroativos. O argumento da empresa foi o de que o desfecho da análise administrativa pela Prefeitura de Brumadinho ainda não saiu, e sem ele não há como garantir a liquidez necessária para arcar com as parcelas atrasadas. O sindicato, contudo, levou essa proposta à categoria, que a rejeitou de forma categórica. Para os trabalhadores, a prorrogação seria apenas mais um adiamento sem garantia real de solução, deixando os rodoviários em situação de insegurança financeira. Foi esse cenário que culminou na votação favorável à greve geral ainda durante a assembleia desta quarta-feira.
A CAF Transportes declarou, ainda antes do anúncio oficial da paralisação, que não havia recebido comunicação formal do sindicato sobre o resultado da votação ou sobre eventuais datas e setores que seriam afetados. A empresa reafirmou seu compromisso com a continuidade da prestação do serviço à população de Brumadinho e voltou a dizer que acredita na possibilidade de um acordo negociado. No entanto, a assembleia já havia se encerrado com a deliberação pela greve, o que significa que, nos próximos dias, os ônibus podem parar de circular em toda a área urbana e também nas localidades rurais que dependem do transporte coletivo — afetando diretamente a rotina de brumadinhenses que moram em bairros como Arqueiro, São Sebastião, Ingaí, Córrego do Feijão e demais regiões atendidas pela concessionária.
A paralisação dos rodoviários em Brumadinho não é um fato isolado, mas sim o ápice de uma crise que se arrasta desde o início das negociações do acordo coletivo 2025/2026. Enquanto o sindicato cobra o cumprimento dos prazos firmados em fevereiro sob mediação do poder público, a empresa joga a responsabilidade para a conclusão da revisão contratual pela Prefeitura. E o município, embora tenha reconhecido a necessidade de recomposição da remuneração do sistema, ainda não entregou a análise final. Nesse impasse de três pontas, quem fica no meio do caminho são os trabalhadores — que veem seus salários e benefícios congelados — e a população, que pode amanhecer sem ônibus para ir ao hospital, à escola ou ao trabalho.
Para os moradores de Brumadinho, a iminência da greve representa mais do que um transtorno passageiro. Muitos dependem exclusivamente das linhas da CAF Transportes para acessar serviços essenciais, uma vez que a cidade tem expandido seu perímetro urbano sem que outras alternativas de mobilidade tenham sido implementadas. Além disso, a paralisação chega em um momento de aumento do custo de vida e de recuperação econômica ainda lenta após os impactos dos desastres ambientais que marcaram a região. Uma eventual interrupção total do serviço pode isolar bairros inteiros, prejudicar o comércio local e até mesmo comprometer o acesso de pacientes a consultas e exames agendados na rede pública. A situação se agrava ainda mais para estudantes de escolas estaduais e municipais que utilizam o transporte escolar complementar operado pela mesma empresa.
Diante do cenário, o Sindicato dos Rodoviários de Brumadinho deve se pronunciar oficialmente nas próximas horas sobre a data de início da greve e a porcentagem dos funcionários que permanecerão em serviço durante a paralisação — se haverá esquema de frota mínima, por exemplo. Já a Prefeitura de Brumadinho, que até o fechamento desta edição não havia se manifestado sobre o desfecho da assembleia, poderá ser chamada a intervir novamente na mediação, sob risco de a população ficar sem transporte por tempo indeterminado. A CAF Transportes, por sua vez, ainda pode recorrer à Justiça para tentar garantir que ao menos 60% ou 80% da frota circule, dependendo do horário e do dia da semana, conforme preconiza a legislação trabalhista em serviços essenciais.
Enquanto isso, os brumadinhenses já começam a se organizar por conta própria. Em grupos de redes sociais, moradores compartilham alternativas como caronas solidárias, fretados informais e até mesmo a possibilidade de deslocamento a pé ou de bicicleta para os trajetos curtos. O comércio local também teme queda no movimento, especialmente nas regiões centrais que dependem do fluxo de passageiros. Resta saber se a paralisação será apenas um movimento de pressão por um acordo rápido ou se se prolongará por dias ou semanas. O que se sabe, por enquanto, é que a assembleia desta quarta-feira foi clara: os rodoviários de Brumadinho disseram não à proposta da empresa e sim à greve.












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