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Menos quimioterapia, mais imunoterapia: SUS ganha reforço com produção nacional de remédio inovador

  • Foto do escritor: Guilherme Almeida
    Guilherme Almeida
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura
Foto: Divulgacão
Foto: Divulgacão

Uma notícia que chega como um sopro de esperança para milhões de brasileiros que enfrentam o câncer e, especialmente, para os brumadinhenses que conhecem de perto a dor da perda e a luta diária por acesso à saúde de qualidade. O Instituto Butantan, laboratório público de referência internacional, firmou uma parceria com a farmacêutica norte-americana MSD para produzir no Brasil o pembrolizumabe, uma terapia inovadora que estimula o sistema imunológico a identificar e combater células cancerígenas. O acordo, resultado de um edital lançado pelo Ministério da Saúde em 2024, prevê a transferência gradual de tecnologia ao longo de dez anos, com o objetivo de que o Butantan assuma integralmente a produção do medicamento, reduzindo custos, garantindo o fornecimento e ampliando o acesso de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) a um tratamento menos tóxico e mais eficaz do que a quimioterapia tradicional.


Atualmente, o pembrolizumabe já é utilizado no SUS para o tratamento de pacientes com melanoma metastático, um tipo agressivo de câncer de pele que se espalha para outros órgãos. Cerca de 1,7 mil pessoas são atendidas por ano, a um custo anual de R$ 400 milhões para os cofres públicos. Agora, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) avaliará a ampliação do uso do medicamento para outros tipos da doença, incluindo câncer de colo do útero, esôfago, mama triplo-negativo e pulmão. Se aprovada, a demanda anual pode saltar para aproximadamente 13 mil pacientes, o que torna a nacionalização da produção não apenas uma questão estratégica, mas também uma necessidade para garantir sustentabilidade financeira e segurança no abastecimento.


Para os moradores de Brumadinho, uma cidade que carrega profundas marcas de uma tragédia que vitimou centenas de pessoas e deixou um rastro de adoecimento físico e emocional, a notícia ressoa de maneira especial. A luta por saúde pública de qualidade é uma pauta constante no município, onde famílias ainda lidam com sequelas do rompimento da barragem e com a dificuldade de acesso a tratamentos especializados. A perspectiva de que um medicamento de ponta contra o câncer passe a ser produzido em território nacional, com potencial de chegar a mais pacientes de forma mais rápida e segura, representa um avanço concreto na direção de um sistema público mais forte e menos dependente de oscilações do mercado internacional.


A secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, Fernanda De Negri, destacou que a parceria vai além da economia de recursos. “O objeto dessa parceria é uma molécula nova, e o Butantan vai desenvolver a capacidade de produzir esta molécula e, acima de tudo, desenvolver a competência para produzir outras moléculas similares no futuro”, explicou. Ela reforçou ainda que a produção nacional traz mais segurança para os pacientes. “A gente produzir aqui deixa o paciente brasileiro com mais garantias de que esse medicamento não vai faltar por conta de eventos externos que causem a interrupção de cadeias logísticas”, afirmou, em referência a crises internacionais que historicamente afetam o fornecimento de insumos de saúde.


O processo de transferência de tecnologia será gradual e começa assim que as novas indicações do pembrolizumabe forem aprovadas para incorporação no SUS. O diretor executivo de Relações Governamentais da MSD Brasil, Rodrigo Cruz, detalhou as etapas. “No começo, a ideia é que eles aprendam como se faz a rotulagem, o envase, para depois passar para formulação e aí sim chegar à etapa final, que é a produção do medicamento em si. Todas as etapas estão previstas dentro do projeto. Leva até oito anos para produzir o IFA [ingrediente farmacêutico ativo] nacional e, a partir daí, finalizar o remédio 100% nacional”, explicou. O contrato prevê um prazo total de dez anos para que o Butantan domine toda a cadeia produtiva.


O anúncio foi feito durante o evento Diálogo Internacional – Desafios e Oportunidades para a Cooperação em Tecnologias em Saúde, realizado no Rio de Janeiro. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, participou de forma remota e ressaltou a importância estratégica da iniciativa. “Não tem como enfrentar esses desafios sem forte cooperação internacional. A saúde deixou de ser apenas uma política social e passou também a ser um eixo central do desenvolvimento econômico, inovação tecnológica e geração de empregos qualificados”, afirmou. Ele também lembrou a força estrutural do SUS. “O SUS não é apenas o maior sistema público universal do mundo, mas também um dos maiores mercados estruturados do planeta em escala, previsibilidade, demanda e capacidade de absorção tecnológica.”


Para os brumadinhenses que acompanham de perto as dificuldades do acesso à saúde na região da Zona da Mata e na capital, a produção nacional de medicamentos como o pembrolizumabe simboliza um passo importante na direção de um sistema mais equânime. Em uma cidade que já viveu a dor de ver centenas de vidas interrompidas e que ainda convive com os impactos de um desastre de grandes proporções, saber que o Brasil está investindo em soberania tecnológica na área da saúde é também saber que, no futuro, mais famílias poderão contar com tratamentos de ponta sem precisar recorrer à judicialização da saúde ou a longas filas de espera. A parceria Butantan-MSD não é apenas uma notícia sobre laboratórios e patentes; é, acima de tudo, uma notícia sobre vidas que podem ser salvas.


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