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Ex-presidente da Vale, réu em ações sobre Brumadinho, é o novo presidente da CSN

  • Foto do escritor: Talles Costa
    Talles Costa
  • há 15 horas
  • 4 min de leitura
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A mudança no comando da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), anunciada nesta quarta-feira (2), provoca uma reação inevitável em Brumadinho: Fabio Schvartsman, que presidiu a Vale quando ocorreu o rompimento da Barragem I da Mina Córrego do Feijão, em 25 de janeiro de 2019, assumirá a presidência executiva da CSN nesta quinta-feira (3). O executivo chega novamente ao comando de uma das grandes empresas do setor mineral brasileiro enquanto continua respondendo a processos relacionados à tragédia de Brumadinho, que deixou 272 mortos, segundo os dados apresentados no texto-base, além dos graves danos ambientais provocados pelo desastre.

A decisão recoloca Schvartsman no centro do debate sobre responsabilidade empresarial, segurança e memória. Para quem vive em Brumadinho, não se trata apenas de uma troca de cadeira em uma grande companhia. Trata-se da volta à liderança de uma mineradora de um executivo cuja trajetória à frente da Vale foi interrompida justamente depois de uma das maiores tragédias da história da mineração brasileira.

Schvartsman havia assumido a presidência executiva da Vale em 23 de maio de 2017, sucedendo Murilo Ferreira. Naquele momento, chegou à empresa com a missão de conduzir uma reorganização e direcionar a companhia para uma atuação alinhada ao Novo Mercado da bolsa de valores. Durante sua gestão, também foram ampliados os recursos destinados à segurança de barragens e reformulados mecanismos de controle de riscos.

A segurança das estruturas ganhou ainda mais importância depois do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015. Segundo o histórico apresentado, uma das diretrizes adotadas durante sua gestão foi justamente a ideia de “Mariana nunca mais”.

Mas, em 25 de janeiro de 2019, a realidade de Brumadinho mostrou que Mariana não havia sido o último capítulo.

O rompimento da Barragem I da Mina Córrego do Feijão destruiu vidas, atingiu comunidades e deixou uma marca que permanece na cidade. O desastre matou 270 pessoas e provocou danos ambientais de grandes proporções. Pouco mais de um mês depois da tragédia, Schvartsman deixou a presidência da Vale.

Agora, sete anos depois do rompimento, o mesmo executivo retorna ao comando de uma empresa do setor mineral. A diferença é que, desta vez, não se trata de uma companhia qualquer: a CSN também possui atuação histórica na mineração brasileira.

E é justamente essa coincidência que torna a escolha especialmente sensível para Brumadinho.

A questão não é simplesmente se um executivo pode mudar de empresa ou seguir sua carreira profissional. A pergunta que permanece é outra: que mensagem uma nomeação como essa transmite às famílias das vítimas, aos sobreviventes e a uma cidade que ainda convive com as consequências da tragédia?

Schvartsman não foi condenado pelos crimes relacionados a Brumadinho. Essa distinção precisa ser feita. O executivo foi denunciado pelo Ministério Público Federal em janeiro de 2023, junto com outras 15 pessoas, e tornou-se réu após a Justiça Federal aceitar a acusação. Posteriormente, em março de 2024, o Tribunal Regional Federal da 6ª Região concedeu habeas corpus e determinou o trancamento das ações penais. O Ministério Público Federal recorreu e, em abril de 2026, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça decidiu, por maioria, restabelecer os processos. Em maio, Schvartsman foi formalmente reincluído nas ações pela Justiça Federal.

Portanto, juridicamente, trata-se de um acusado que continua respondendo às ações, e não de alguém condenado definitivamente pelos crimes. A acusação, entretanto, é de extrema gravidade: homicídio duplamente qualificado, com dolo eventual, e crimes ambientais.

É exatamente por isso que a escolha para comandar uma mineradora merece ser questionada publicamente.

Em Brumadinho, a palavra “responsabilidade” ganhou um significado que ultrapassa documentos corporativos, balanços financeiros e decisões administrativas. Ela está ligada a nomes, histórias, famílias e vidas interrompidas. Cada vez que uma grande empresa anuncia seus executivos, a sociedade também pode perguntar quais critérios foram utilizados para escolhê-los e quais valores estão sendo considerados.

A nova posição de Schvartsman na CSN também chama atenção porque sua passagem pela Vale esteve diretamente associada ao período que antecedeu a tragédia. Em depoimento à CPI do Senado, em março de 2019, o então ex-presidente afirmou que a Vale trabalhava com laudos de estabilidade emitidos por auditorias externas e que não havia recebido informações prévias sobre qualquer risco de perigo iminente. Também declarou que a empresa realizava pagamentos emergenciais aos atingidos.

As declarações fazem parte do processo e do debate público sobre as responsabilidades relacionadas ao rompimento.

Agora, a partir desta quinta-feira (3), Schvartsman volta a ocupar a principal posição executiva de uma companhia ligada à mineração. A nomeação pode ser vista pelo mercado sob diferentes perspectivas, mas, para Brumadinho, é impossível ignorar o passado recente.

O ponto central não é transformar uma acusação em condenação. É reconhecer que existe uma diferença profunda entre aquilo que a Justiça ainda precisa decidir e aquilo que a memória de uma cidade já registrou.

Brumadinho perdeu 270 pessoas no rompimento da barragem. A cidade perdeu trabalhadores, pais, mães, filhos, irmãos, amigos e conhecidos. A lama também atingiu o território e deixou consequências ambientais e sociais que continuam fazendo parte da realidade local.

Por isso, a volta de um ex-presidente da Vale ao comando de uma mineradora, enquanto ele ainda responde judicialmente por acusações relacionadas à tragédia, não deveria passar despercebida.

A mineração pode falar em segurança, responsabilidade e futuro. Mas, para uma cidade como Brumadinho, essas palavras precisam vir acompanhadas de atitudes capazes de demonstrar que vidas humanas estão acima de qualquer resultado empresarial.

A nomeação de Schvartsman não apaga o processo judicial, não encerra a discussão sobre responsabilidades e, principalmente, não apaga a memória das vítimas.

Para Brumadinho, fica a pergunta que talvez seja impossível evitar: o que precisa acontecer para que a responsabilidade por uma tragédia dessa dimensão seja considerada também na hora de escolher quem volta a comandar uma mineradora?


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