Brumadinho reúne vítimas de tragédias nacionais e lança Carta à Justiça do Brasil
- Talles Costa

- há 5 dias
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Brumadinho voltou a se transformar em espaço de escuta, denúncia e articulação nacional ao sediar, nesta semana, um painel que reuniu familiares de vítimas de grandes tragédias brasileiras para a construção da chamada Carta à Justiça do Brasil, documento que sistematiza cobranças por responsabilização efetiva, celeridade judicial e garantia do direito à memória. O encontro, que ocorre nesta manhã de sexta (23) no Memorial Brumadinho, acontece em um momento simbólico, às vésperas dos sete anos do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, e reforça o município como referência nacional na luta pela não repetição de crimes socioambientais e pelo reconhecimento dos danos que seguem impactando milhares de pessoas.
O painel reuniu representantes de diferentes territórios marcados por tragédias ambientais e industriais, criando um espaço de troca de experiências sobre os caminhos — e obstáculos — enfrentados por quem busca justiça após grandes crimes. Ao longo das falas, ficou evidente que, apesar das particularidades de cada caso, há um padrão comum de demora nos processos judiciais, dificuldade de responsabilização criminal e sensação recorrente de impunidade, elementos que atravessam a vida das famílias atingidas e das comunidades impactadas.
A proposta da Carta à Justiça do Brasil surge justamente como resposta coletiva a esse cenário. O documento reúne reivindicações que vão desde o fortalecimento das investigações criminais até a necessidade de decisões judiciais mais céleres, transparentes e alinhadas à gravidade dos danos causados. Também destaca a importância de políticas públicas permanentes de reparação, acompanhamento social e ambiental de longo prazo e preservação da memória das vítimas como instrumento de justiça e prevenção.
Realizado no Memorial Brumadinho, espaço construído a partir da dor e da resistência das famílias, o encontro teve forte carga simbólica. Para os participantes, estar em Brumadinho é reafirmar que a tragédia não pertence apenas ao passado, mas continua produzindo efeitos sociais, econômicos, ambientais e psicológicos. A escolha do local reforça a ideia de que memória e justiça caminham juntas e que esquecer significa abrir espaço para que novos crimes aconteçam.
Durante o painel, relatos apontam que, mesmo anos após os rompimentos, muitas comunidades ainda convivem com insegurança ambiental, perdas econômicas, adoecimento físico e mental e rupturas profundas nos modos de vida. Em Brumadinho, essas marcas seguem presentes no cotidiano, seja na paisagem, seja nas histórias de famílias que ainda aguardam respostas concretas do sistema de Justiça.
A construção coletiva da carta também buscou dialogar com a sociedade brasileira como um todo, destacando que tragédias desse tipo não são eventos isolados, mas consequência de modelos econômicos, falhas regulatórias e escolhas políticas que precisam ser enfrentadas de forma estrutural. Ao centralizar a escuta das vítimas, o documento pretende romper com narrativas que reduzem os crimes a acidentes e reforçar a necessidade de responsabilização em todas as esferas.
Para os brumadinhenses, o painel representa mais do que um ato simbólico. Ele reafirma o papel da cidade como território de resistência, aprendizado e mobilização, capaz de transformar dor em ação coletiva e de contribuir para um debate nacional sobre justiça, segurança e direitos humanos. A expectativa é que a Carta à Justiça do Brasil seja encaminhada aos órgãos do Judiciário e do sistema de justiça, funcionando como instrumento político e social de pressão e memória.
Sete anos após o rompimento da barragem, Brumadinho segue sendo chamada a lembrar, denunciar e construir caminhos. O painel e a carta reforçam que a luta por justiça não se encerra com acordos ou discursos oficiais, mas exige vigilância permanente, participação popular e compromisso real com a vida.


















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