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Brasil tem 23% das reservas mundiais de terras raras; Minas Gerais concentra maior parte do minério

  • Foto do escritor: Talles Costa
    Talles Costa
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura
Foto: Sigma Lithium/Divulgação
Foto: Sigma Lithium/Divulgação

Os moradores de Brumadinho, cidade que carrega as marcas profundas da mineração com o rompimento da barragem da Vale em 2019, vivem diariamente os dilemas que agora ganham contornos globais. Terras raras, minerais estratégicos e minerais críticos — termos que têm aparecido cada vez mais no noticiário econômico e geopolítico — cumprem papéis diferentes na economia mundial, mas todos convergem para um mesmo ponto: o Brasil está no centro do tabuleiro. Para os brumadinhenses, que conhecem os impactos socioambientais da extração mineral como poucos, entender essas distinções é fundamental para participar do debate sobre o modelo de desenvolvimento que se quer para o país e para a região.

Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), os Elementos Terras Raras (ETR) são um grupo específico de 17 elementos químicos da tabela periódica: 15 lantanídeos (como lantânio, cério, neodímio e disprósio), além de escândio e ítrio. Apesar do nome, eles não são necessariamente raros na natureza, mas costumam estar dispersos, o que dificulta a exploração econômica. São essenciais para tecnologias de ponta: turbinas eólicas, carros elétricos, baterias, eletrônicos e sistemas de defesa. Já os minerais estratégicos são aqueles considerados essenciais para o desenvolvimento econômico dos países pela sua aplicação em produtos e processos de alta tecnologia, defesa e transição energética. Os minerais críticos, por sua vez, são aqueles cujo suprimento envolve riscos de abastecimento, como concentração geográfica da produção, dependência externa, instabilidade geopolítica e dificuldade de substituição.

A definição de quais minerais são estratégicos ou críticos depende de cada país e pode mudar com o tempo, de acordo com avanços tecnológicos, descobertas geológicas, mudanças geopolíticas e evolução da demanda. Exemplos comuns atualmente são lítio, cobalto, grafita, níquel e nióbio. Terras raras podem ser consideradas minerais críticos ou estratégicos dependendo do contexto. Ou seja: toda terra rara pode ser estratégica, mas nem todo mineral estratégico é terra rara. Para os brumadinhenses, que viram a mineração do ferro deixar um rastro de destruição, a chegada de uma nova onda de exploração de minerais para a transição energética acende um sinal de alerta: será que desta vez será diferente?

O Brasil tem números impressionantes. Segundo o SGB, o país possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas — aproximadamente 23% das reservas globais, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). A maior parte está concentrada em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe. O Brasil também detém as maiores reservas de nióbio do mundo (94%), com 16 milhões de toneladas; é o segundo no ranking global de reservas de grafita (26%), com 74 milhões de toneladas; e o terceiro em reservas de níquel (12%), com 16 milhões de toneladas. Uma lista publicada pelo Ministério de Minas e Energia em 2021 divide os minerais estratégicos em três grupos: os que precisam ser importados, os usados em alta tecnologia e os que geram superávit comercial. Nióbio, grafita e urânio aparecem em mais de um grupo.

A disputa global por esses recursos coloca o Brasil no radar, mas o país ainda tem um longo caminho a percorrer. Hoje, a China lidera amplamente o refino e a produção de terras raras, preocupando Estados Unidos e União Europeia, que buscam diversificar fornecedores. O professor de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Luiz Jardim Wanderley, especialista em política, economia e mineração, analisa que o desafio brasileiro não está apenas na extração. A cadeia produtiva envolve etapas complexas como beneficiamento e refino, ainda pouco desenvolvidas no país. Sem isso, o Brasil tende a continuar importando produtos de maior valor agregado, repetindo o padrão histórico de dependência. "Foi assim com o ouro colonial, passando pelo ferro e até o petróleo. Servindo para o mundo como um país primário-exportador. A gente exporta muitos minerais e os consome muito pouco no mercado nacional", afirma Jardim.

Para os moradores de Brumadinho, há ainda outra camada: os impactos ambientais e sociais. Jardim é enfático ao dizer que não existe mineração sustentável. Toda mineração causa impactos ambientais pesados, como o comprometimento de recursos hídricos. Também causa pressão econômica nos municípios: aumento da pobreza, desigualdade e violência urbana. O modelo atual é completamente insustentável, avalia o geógrafo. Ele reconhece que é possível fazer um modelo um pouco menos degradante, mas ainda assim seriam feitos grandes buracos para extrair os minérios, desmontar montanhas e afetar cursos de água. "Precisamos pensar com muita calma se realmente vale a pena, já que perdemos muitos recursos naturais e os efeitos socioambientais são significativos", complementa. Para Brumadinho, que já pagou um preço altíssimo com 272 mortes e um rio devastado, a pergunta ecoa forte: que mineração se quer para o futuro?


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