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Retomada de mineração ameaça abastecimento de água em comunidade de Brumadinho

  • Foto do escritor: Moisés Oliveira
    Moisés Oliveira
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura
O mapa acima mostra a proximidade da nova cava de exploração (Jangada) com a comunidade homônima e, também, com a barragem que causou a morte de 272 pessoas em 2019.
O mapa acima mostra a proximidade da nova cava de exploração (Jangada) com a comunidade homônima e, também, com a barragem que causou a morte de 272 pessoas em 2019.

Na região de Casa Branca, a retomada das operações na Mina da Jangada reacendeu um profundo temor entre os moradores sobre o futuro do recurso mais essencial: a água. A menos de dois quilômetros das cavas que a Vale, em parceria com a Itaminas, pretende ampliar, estão as nascentes que, há mais de três décadas, abastecem centenas de famílias da comunidade da Jangada por meio de um sistema de captação construído e mantido pelas próprias mãos dos habitantes. A preocupação central é que a expansão da atividade minerária, que ocorre no mesmo complexo da tragédia de 2019, rebaixe o lençol freático e comprometa de vez a segurança hídrica local, um cenário que ecoa os traumas do passado e coloca em risco o sustento diário da população.

A história de resistência e autonomia da Jangada está intimamente ligada à sua água. Na ausência do poder público, foram os moradores, liderados por figuras como o saudoso João Casa Branca, que se uniram para comprar canos e instalar a rede que hoje garante o abastecimento. Um rego que antes corria livremente pelos terrenos, conforme lembram os mais antigos, já perdeu grande parte de sua vazão, sinalizando uma mudança ambiental perceptível. A professora Cátia Patrocínia Cruz Maia, integrante da associação que administra o sistema, relata que a comunidade foi surpreendida pela reabertura da mina em 1º de agosto de 2025, sem qualquer consulta prévia ou diálogo transparente sobre os impactos reais que a ampliação da cava pode causar.

O licenciamento que permite a operação é alvo de críticas contundentes. Trata-se da mesma licença ambiental concedida em 2018 pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad) para o Complexo Paraopeba, que englobava tanto a Mina da Jangada quanto a do Córrego do Feijão. Baseada em estudos com mais de dez anos, ela foi expedida 45 dias antes do rompimento da barragem. Suspensa após a tragédia, a autorização foi reativada e transferida para a Itaminas em 2025, em um arranjo onde a Vale mantém o direito de lavra e a Itaminas assume a operação prática. Para ativistas e moradores, reutilizar um documento associado ao maior crime ambiental da história da mineração brasileira representa uma falha grave e um desrespeito à memória das 272 vítimas.

A resposta corporativa às preocupações comunitárias gera mais desconfiança do que tranquilidade. Em correspondência, a Vale afirmou realizar monitoramento contínuo das nascentes e citou um relatório de 2024 indicando que a maioria permanece "corrente". No entanto, em um trecho revelador, a empresa argumentou que estudos sobre o rebaixamento do nível freático passariam a ser responsabilidade do "arrendatário" – a Itaminas –, pois estão "intrinsecamente vinculados ao modelo operacional do novo empreendimento". Essa transferência de responsabilidade por um impacto potencialmente catastrófico para uma empresa com um histórico marcado por acidentes fatais, como o rompimento da barragem da Mina do Fernandinho em Itabirito em 1986, é vista como um grave sinal de alerta.


Foto: Renata Regina
Foto: Renata Regina

Diante da iminência de um novo risco, a comunidade e organizações parceiras, como o Instituto Cordilheira, intensificaram sua mobilização. Além de participar de assembleias de acionistas da Vale para denunciar publicamente a situação, os moradores lançaram um abaixo-assinado exigindo o fechamento definitivo das minas da Jangada e do Córrego do Feijão e a extinção do título minerário. Para os brumadinhenses da Jangada, a luta atual vai além da oposição a um projeto; é uma batalha pela sobrevivência, pela garantia de que o futuro não será novamente sacrificado em nome da extração mineral, e que a água, conquistada com tanto esforço comunitário, continuará a correr livre e segura para as próximas gerações. *Com informações de Felipe Duran e Mylena Melo para o site Mongabay.com


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