Novas espécies de mamíferos são registradas em Brumadinho após quatro anos de monitoramento
- Moisés Oliveira

- há 2 dias
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Um amplo programa científico desenvolvido por pesquisadores de universidades mineiras, em parceria com a Vale e acompanhado por órgãos públicos, colocou Brumadinho novamente no centro de um debate ambiental relevante ao confirmar a existência de sete novas espécies de pequenos mamíferos não voadores na região e na bacia do rio Paraopeba, resultado que reforça a importância da biodiversidade local e traz novos indicativos sobre a recuperação dos ecossistemas afetados pela atividade minerária e pelo rompimento da barragem.
O monitoramento, iniciado há quatro anos, tem como objetivo acompanhar a fauna e a flora aquática e terrestre em diferentes pontos do território, gerando dados científicos que orientam ações de conservação e recuperação ambiental. No início do trabalho, eram conhecidas 15 espécies de pequenos mamíferos não voadores na área de Brumadinho. Ao longo das pesquisas, todas elas voltaram a ser registradas e, além disso, sete novas espécies foram identificadas pela primeira vez na região, ampliando de forma significativa o conhecimento sobre a fauna local.
Entre os animais catalogados estão roedores e marsupiais de pequeno porte, com peso geralmente inferior a 1,5 quilo, considerados essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas tropicais. Esses mamíferos desempenham funções estratégicas, como a dispersão de sementes, contribuindo diretamente para a regeneração natural de áreas degradadas. No Brasil, esse grupo reúne 299 espécies, sendo 230 roedores e 69 marsupiais, o que reforça a relevância do registro feito em Brumadinho dentro do cenário nacional da biodiversidade.
As novas espécies identificadas incluem quatro marsupiais: a cuíca-lanosa (Caluromys philander), a cuíca-graciosa (Gracilinanus agilis), a cuíca-de-rabo-curto (Monodelphis kunsi) e a cuíca-quatro-olhos (Philander quica). Também foram registrados três roedores: Bibimys labiosus, Calomys tener e Cerradomys scotti. A presença desses animais revela a diversidade de habitats ainda existentes na região, que abriga áreas de Mata Atlântica, Cerrado e zonas de transição entre os biomas.
Para a bióloga Cristiane Cäsar, especialista em biodiversidade da Vale, o resultado representa um avanço científico e ambiental importante para Brumadinho e toda a bacia do Paraopeba. Segundo ela, além de ampliar o conhecimento sobre a fauna brasileira, o registro dessas espécies indica que os fragmentos naturais do entorno continuam funcionando como refúgio para a vida silvestre, permitindo que os animais recolonizem, de forma gradual, áreas que estão em processo de recuperação. A pesquisadora destaca ainda que o levantamento possibilita planejar ações mais precisas de manejo e conectividade ecológica, fundamentais para fortalecer a restauração ambiental.
Os estudos também apontam que as espécies encontradas apresentam alta capacidade de adaptação. Algumas, como a cuíca-lanosa e o rato-do-mato, têm papel direto no reflorestamento de áreas de Mata Atlântica por meio da dispersão de sementes. Outras, como o Calomys tener, são mais comuns em ambientes abertos e no Cerrado, o que evidencia a resiliência da fauna local diante das transformações ambientais ocorridas ao longo dos últimos anos.
De acordo com o professor Adriano Paglia, do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o acompanhamento contínuo dessas espécies será determinante para avaliar a efetividade das ações de recuperação ambiental. O pesquisador ressalta que a análise da ocorrência e da abundância dos pequenos mamíferos permitirá ajustes nas estratégias de restauração, tornando o processo mais eficiente e alinhado às características naturais do território de Brumadinho.
Paglia também destaca que o fato de uma comunidade relativamente rica de pequenos mamíferos conseguir se manter mesmo em áreas impactadas demonstra a importância ecológica da região e o potencial de recuperação do ambiente. Para ele, o monitoramento não apenas contribui para reparar danos ambientais, mas cria uma base sólida para decisões futuras voltadas à sustentabilidade e à conservação da biodiversidade.
A equipe científica seguirá com as atividades de campo nos próximos anos, ampliando o acompanhamento da fauna e avaliando como essas espécies se comportam à medida que as áreas degradadas avançam no processo de recuperação. Para os brumadinhenses, os resultados reforçam que, apesar das marcas deixadas por grandes impactos ambientais, a região ainda abriga uma biodiversidade rica e estratégica, cujo cuidado é essencial para garantir um futuro ambientalmente mais equilibrado.


















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