Memorial Brumadinho reúne Leda Maria Martins e ceramistas para roda de conversa sobre terra e memória
- Talles Costa

- há 15 horas
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Os moradores de Brumadinho que buscam uma reflexão profunda sobre a relação entre terra, memória e os modos de habitar o mundo terão uma oportunidade única no próximo dia 23 de maio. O Memorial Brumadinho realiza, a partir das 9h30, o evento “Unir a Terra”, uma atividade que integra a programação da Semana Nacional de Museus 2026. O encontro reúne diferentes gerações de ceramistas — Erli Fantini, José Alberto Bahia e Jéssica Martins — e uma das vozes mais potentes do pensamento brasileiro contemporâneo, Leda Maria Martins, poeta, dramaturga e pesquisadora reconhecida internacionalmente por sua produção intelectual sobre matrizes negro-africanas e o corpo como lugar de memória e saber. Para os brumadinhenses, o evento representa uma chance de dialogar com artistas e intelectuais que enxergam o barro não como mera matéria-prima, mas como um elemento de resistência e reconstrução.
A programação tem início às 9h30 com uma visita mediada ao Memorial, conduzida pela equipe do Educativo e destinada ao público inscrito. A visita permite que os participantes conheçam o espaço que homenageia as 272 vítimas do rompimento da barragem em 2019, incluindo o bosque de ipês amarelos, o espaço meditativo e as salas expositivas. Em seguida, às 10h30, acontece a roda de conversa, com mediação de Pauline Araújo, gestora museológica da Fundação Memorial de Brumadinho. Os ingressos são gratuitos, com vagas limitadas, e podem ser retirados antecipadamente no site do Memorial Brumadinho ou na bilheteria do local no dia do evento.
O encontro propõe refletir sobre a terra para além de sua condição de matéria-prima, tensionando seus usos e explorando o papel da arte e da memória na reconstrução de vínculos em territórios marcados pelo extrativismo. Nesse contexto, a prática da cerâmica surge como contraponto a uma lógica histórica de exploração dos recursos naturais que marcou, e ainda marca, Brumadinho. Quem trabalha com o barro sabe que não o domina, mas deve deixar que a água decida o tempo, e o fogo desenhe o resultado da peça. Trata-se de uma forma de se relacionar com a matéria baseada na escuta, no cuidado e na paciência — valores opostos aos da mineração predatória que devastou a região.
Erli Fantini, artista plástica e ceramista com mais de 50 anos de carreira, formada pela Escola de Belas Artes da UFMG, foi uma das primeiras a instalar ateliê em Brumadinho, tornando-se precursora do polo de cerâmica artística da região. Em seu ateliê em Palhano, na Serra da Moeda, construiu seu próprio forno a lenha para queima em alta temperatura. Para ela, o olhar do artista precisa estar sempre atento e aberto ao acaso — tal como a própria cerâmica: imprevisível, inconstante, mutante. Já José Alberto Bahia e Jéssica Martins, do Saracura Três Potes, trabalham às margens do Ribeirão Piedade, em área de Mata Atlântica, a partir de uma filosofia de escuta: o barro tem vontade própria, e trabalhar com ele exige atenção. Seu trabalho parte da flora e das memórias brasileiras — não para copiar formas, mas para se aproximar da lógica de uma cabaça, da textura de uma folha, da resistência das cascas que guardam a vida na mata.
Leda Maria Martins, por sua vez, é uma das intelectuais mais relevantes do Brasil. Seu pensamento questiona o eurocentrismo e abre espaços para pensar o mundo, as ancestralidades e seus futuros. São seus os conceitos de tempo espiralar e oralitura — noções que exploram os saberes das matrizes negro-africanas e tratam o corpo como lugar de inscrição de memória e saber. A presença de Leda no Memorial Brumadinho é um acontecimento cultural de primeira grandeza para a cidade. Em diálogo com o tema da Semana Nacional de Museus, "Museus unindo um mundo dividido", promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o encontro propõe uma escuta de diferentes saberes, trajetórias e perspectivas, reconhecendo no compartilhamento dessas experiências um caminho para construir novos sentidos comuns em uma realidade marcada por rupturas e processos de reconstrução. Fabíola Moulin, diretora-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho, afirma que "este é um encontro que reforça a razão de ser do Memorial Brumadinho ao reunir diferentes saberes e convidar o público a olhar com mais atenção para o mundo e para o impacto das nossas ações sobre todas as formas de vida". O evento é gratuito, com vagas limitadas. Brumadinho, mais uma vez, mostra que sua força está na cultura, na memória e na resistência.















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