Livro sobre Memorial Brumadinho reúne fotos de Leonardo Finotti e texto de Milton Hatoum; obra já está disponível
- Guilherme Almeida

- há 4 dias
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Os brumadinhenses que perderam entes queridos no rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, em janeiro de 2019, ganharam neste fim de semana mais uma ferramenta para manter viva a memória da tragédia e de suas vítimas: o livro “Brumadinho: Espaços e tempos da memória”, lançado em Belo Horizonte, que reúne fotografias de Leonardo Finotti e textos do renomado escritor Milton Hatoum. A publicação, editada pela Editora Unesp, apresenta ao público os detalhes arquitetônicos e simbólicos do Memorial Brumadinho, inaugurado em 25 de janeiro de 2025 exatamente seis anos após o desastre, e que já recebeu cerca de 25 mil visitantes desde então. O arquiteto responsável pelo projeto, Gustavo Penna, esteve presente no evento de lançamento ao lado de Hatoum, e ambos conversaram com familiares de vítimas e moradores da região. Para a população de Brumadinho, o livro representa não apenas um registro artístico, mas também uma forma de garantir que as 272 vidas perdidas — e todas as dores que se seguiram — não sejam apagadas pelo tempo ou pela indiferença.
A criação do memorial, que fica exatamente no local onde a lama da Vale se espalhou destruindo tudo pela frente, foi um processo profundamente pessoal para Gustavo Penna. O arquiteto revelou que o rompimento o atingiu de forma visceral, e que a proposta arquitetônica só ganhou forma depois de ele ouvir com atenção os relatos de familiares das vítimas, bombeiros que atuaram nos resgates e moradores que testemunharam o desastre. Dessa escuta atenta nasceu um espaço que foge do convencional: não é um monumento frio ou uma obra distante. Pelo contrário, o memorial foi pensado para ser tocado, vivido e sentido. Suas fendas na fachada permitem a entrada da luz natural de maneiras que mudam ao longo do dia, e o concreto pigmentado utilizado em sua construção contém resíduos semelhantes à lama que soterrou o Córrego do Feijão. Para os brumadinhenses que visitam o local, cada detalhe remete à tragédia, mas também à força de quem ficou.
O livro, com 242 páginas e custo de R$ 160, não se limita a mostrar o memorial por meio das lentes de Leonardo Finotti, um dos mais respeitados fotógrafos de arquitetura do país. Ele também conduz o leitor por um percurso narrativo, guiado pelos textos de Milton Hatoum, que abordam com sensibilidade o peso da memória e a necessidade de rituais de luto coletivos. A obra destaca ambientes internos do memorial, como o Espaço Memória, onde estão expostos nomes, fotografias e objetos pessoais das vítimas doados pelas famílias. Há também áreas que exibem registros do momento exato do rompimento e dos trabalhos de busca e resgate, que duraram meses e mobilizaram centenas de bombeiros de todo o país. Para quem não pode ir até Brumadinho, o livro funciona como uma visita guiada; para quem já esteve lá, é uma oportunidade de revisitar aquele lugar de dor e esperança com novos olhos.
Os moradores de Brumadinho têm no memorial um símbolo ambíguo: ao mesmo tempo que ele mantém viva a lembrança do pior dia de suas vidas, também representa o reconhecimento oficial de que uma tragédia daquela magnitude não pode ser varrida para debaixo do tapete. Muitos familiares participaram ativamente das discussões sobre o projeto arquitetônico, pedindo que o espaço fosse acolhedor e não apenas solene. Eles queriam um lugar onde pudessem chorar, mas também onde pudessem trazer os netos para entender o que aconteceu. O memorial, com suas fendas que lembram feridas abertas na terra e no tempo, conseguiu equilibrar essas demandas. O lançamento do livro, agora, amplia esse alcance: a memória de Brumadinho sai do local físico e chega a livrarias, bibliotecas e escolas em todo o Brasil.
A publicação pela Editora Unesp, uma das mais respeitadas do país no campo acadêmico e cultural, confere ao memorial um status de patrimônio documental. O livro não é um simples catálogo de fotos; é uma obra que entrelaça arte, arquitetura, literatura e testemunho. Para os brumadinhenses que ainda lutam por reparação integral, por saúde mental e por justiça, ver a história de sua cidade registrada em um livro de alto nível editorial traz um misto de orgulho e dor. Orgulho de que o mundo não se esqueceu. Dor porque o preço desse reconhecimento foi altíssimo.















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