Moradores da Bacia do Paraopeba querem lugar à mesa e debates descentralizados, cobra João do Social
- Moisés Oliveira

- 17 de abr.
- 4 min de leitura

Em um tom de quem já aprendeu na pele que esperar por soluções vindas de cima para baixo nunca foi suficiente, o líder comunitário e ativista João do Social levou nesta quinta-feira (16) para o centro da audiência pública da Comissão Externa da Câmara dos Deputados, em Brasília, uma cobrança direta e sem rodeios: os atingidos pelo rompimento da barragem em Brumadinho precisam sentar à mesa de negociação, opinar sobre cada decisão e deixar de ser meros espectadores de um processo de reparação que corre o risco de ignorar quem mais sofreu. Durante mais de três horas de debate no Anexo II, Plenário 04, João falou em nome das centenas de famílias da Bacia do Paraopeba que ainda aguardam respostas concretas — e aproveitou o microfone para pedir que o deputado Rogério Correia leve ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o anseio por um diálogo direto, sem intermediários que distorçam a realidade de quem viu o rio morrer e a vida mudar da noite para o dia.
A audiência, que começou às 9h30, foi convocada com base nos Requerimentos nº 15/2024 e nº 22/2024, ambos de autoria do deputado Rogério Correia, e tinha como pauta principal a fiscalização dos acordos de reparação — com destaque para a repactuação do desastre de Mariana e os avanços (ou a falta deles) no caso de Brumadinho. Estavam na mesa autoridades de peso: a secretária nacional Kelli Mafort, representando a Secretaria-Geral da Presidência; a diretora Julevânia Olegário, do Ministério de Minas e Energia; a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva; além do prefeito de Brumadinho, Gabriel Parreiras, e da prefeita de Mário Campos, Andresa Rodrigues. Também participaram representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), da Defensoria Pública da União (DPU) e do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). Mas, para quem acompanhou o plenário, foi a fala de João do Social que trouxe a temperatura real da rua.
Antes mesmo de qualquer dado técnico ou planilha de valores, João fez questão de lembrar que sua atuação na defesa das comunidades não começou com mandato ou título político, mas sim com a dor de ver vizinhos perdendo tudo. “Quem vive na Bacia do Paraopeba sabe o tamanho da mudança que esse crime causou em nossas vidas. Não queremos luxo, queremos respeito. Queremos estar na mesa de negociação, participando das decisões que impactam o nosso dia a dia, nossas famílias e o nosso futuro”, afirmou, arrancando aplausos de boa parte do público presente. Para os brumadinhenses que acompanham de perto as idas e vindas das tratativas de reparação, a fala ecoou como um alerta: sem participação popular, qualquer acordo corre o risco de ser insuficiente.
Um dos momentos mais marcantes da intervenção de João foi o apelo direto ao deputado Rogério Correia para que ele atue como ponte entre os atingidos e o presidente Lula. “Precisamos ser escutados pelo presidente. Queremos sentar, conversar e construir juntos. A nossa luta é por dignidade, por espaço e por oportunidade de fala”, disse. A fala revela uma insatisfação que é comum entre as famílias de Brumadinho e de outras cidades afetadas: a sensação de que as decisões importantes são tomadas em gabinetes em Brasília ou em escritórios da Vale, enquanto quem perdeu parentes, casas e meios de subsistência fica à margem.
Outro ponto central levantado por João foi a necessidade de descentralizar os debates. Para ele, discutir reparação apenas na capital federal é um erro que afasta o processo da realidade de quem sofre. “Não queremos essa discussão distante da nossa realidade. Ela precisa acontecer onde o povo está, onde a vida foi impactada. Precisamos participar ativamente desse processo. Precisamos estar na Assembleia”, cobrou, referindo-se à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e a espaços públicos nas cidades atingidas. A fala encontrou respaldo entre outros participantes da audiência, que reconhecem que a distância geográfica e burocrática muitas vezes esfria a urgência que o caso exige.
João também fez questão de reconhecer publicamente o trabalho de aliados institucionais, como o prefeito Gabriel Parreiras e o deputado federal Pedro Aihara, que têm atuado na defesa da pauta. Mas deixou claro que apoio institucional não substitui o protagonismo popular. “A união é importante, mas quem sangra na veia é o povo. E é o povo que tem que falar mais alto”, resumiu.
A audiência ainda debateu dois temas que são vitais para a sobrevivência imediata das famílias: a criação de um novo auxílio emergencial e a continuidade do Programa de Transferência de Renda (PTR). Sem essas políticas, muitos moradores da Bacia do Paraopeba simplesmente não conseguem se manter — o que torna qualquer discussão sobre reparação de longo prazo incompleta se não vier acompanhada de alívio emergencial. A ministra Marina Silva, presente no evento, ouviu atentamente os relatos e comprometeu-se a levar as demandas para dentro do governo.
Para os brumadinhenses que ainda aguardam indenizações justas, reassentamentos dignos e a recuperação ambiental do território, a participação de João do Social em Brasília representa mais do que uma fala em um plenário. Representa a certeza de que há alguém disposto a incomodar, a cobrar e a não aceitar migalhas em nome de quem não pode estar ali. A íntegra da audiência segue disponível no canal da Câmara dos Deputados no YouTube, mas para quem vive o drama dia após dia, o recado já foi dado: os atingidos não vão aceitar ser coadjuvantes na própria tragédia.















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